terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Imperatriz

Palavras, todas

Múltiplas

Soltas

Belas

Tolas

Revoltas



Silêncio é só um

Um com o sopro

Único

Potente

Pleno de sons



Em suas vagas,

Entrega



Deixar ir

Deixar vir

Entristecer

Desejar

Aprofundar



Melhor é calar

No peito

Silêncios e Palavras

Transformar

Esperar, parir, amar



O tempo da floresta

É doce

O tempo do rio é sábio

O tempo de toda gente

É ímpar

Latente de verdades

Por dizer



Mestres de Si

Também aprendem

Humildade

Coração e Arte

Ouvir e Ver

Com paciência

Sapiência

Sem esperança e sem medo



Abrir-se para os Deuses

Fendas no passado e no

Tempo dos homens

As feridas se curam na

Poeira das horas

Confiar é possível

Há almas sorrindo

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Corpurificando

Sinto com o corpo
Penso com o corpo
Mas nunca soube
Por isso ele dói
Essa parte de mim, tão íntima e revelada
Sempre me foi secreta
Aí está a vida chamando o alquimista
Que vive em mim

Aliceando

Criança do semblante puro e desanuviado E dos olhos sonhadores de maravilhas! Embora o tempo se escoe, e eu e tu Estejamos separados por metade de uma Vida, Teu sorriso adorável certamente evocará O dom do amor de um conto de fadas. (Lewis Carroll)

Não lembro quando li esse verso pela primeira vez... mas a sensação ficou. Eu, pisciana, fui/sou uma criança de semblante desanuviado e olhos sonhadores de maravilhas. Sou a mulher sedutora e ladina. Sou a velha árvore que observa as brincadeiras do tempo. E não sou nada disso. Sou apenas energia que um dia voltará para Olorun e nele pousará vazia.

Verá todas as minhas vidas
Velha, Criança, Mulher
Concubina
Menino, Homem, Ancião
Freira, Monja, Meretriz
Intenso é o sentir
Tão imenso que não cabe no peito
É vento
E assusta
Muitas coisas são guardadas
Não segredos, mas amarras
Adagas que ferem a carne macia
Quando falo
Falo com a alma
Não há em mim palavras vazias
Isso não é desse mundo
Mas é nele que vivo
É nele que circulo em torno
da grande ruína
É nele que alço vôos nessa
existência fugidia
Não sei jogar
Nunca soube
Transmuto eus para falar com outros
Os amantes
Os que amo
São sempre mestres
No caminho
Silenciar e ser eremita
E mesmo assim dançar, brincar, rir
Falar com a carne da alma, puro sentir
Deixar a Luz tomar o Deus que há em mim
E deixar brilhar até a sombra que também me traduz

domingo, 18 de outubro de 2009

Madrugada

esperar pelo outro
um aceno
uma resposta
não mais
sigo só
asas soltas
pairando sobre a luz
despeço-me
dos velhos hábitos
que parecem me explicar
é tempo
sigo
caminho
em mim
os acenos
não virão
se vierem
sentirão meu perfume
pressentirão minha força
agora
só há brisa silenciosa
na noite escura

Iaromila

sábado, 17 de outubro de 2009

Movimentos Corporais

Aceitar e Amar

A falta é sentida
Serpente que é
Faz o movimento surgir
Para que sejamos o que somos
Deixar ir é libertador
Atávico seria sofrer

Receber o tapa
Dor
Mas dar a "outra" face
Nunca a mesma
Uma face
filha da compreensão

Dos fios de carícia
Dos desejos de perdoar
Um ser se constrói
Firme
Frágil, porém vigoroso
Resiliente

Os pequenos detalhes
São vistos
Como pequenos carinhos
E das atenções fugidias,
mas presentes
Surge um Ser
Que é Amor
Que busca doçura
Ao invés de amargura
Que busca alegria
Ao invés do desespero
Que está na Graça
De um sentimento
livre
Que ferve.
Proporciona Paz
e Luz

Iaromila
2009


Novelo

Tear do invisível
De tempos diversos
Cada minuto junto
Gera horas infindas
Miríade de teceres
Nada se sabe
Além do sentir
Cheiros
Toques
Simples sentimento
Delicadeza
Novelos de dúvidas
Pra que saber?
O tempo brinca
O corpo pulsa
Puro fluir
Desejo
Subterfúgio
Energia intensa
Sangue que ferve
Corpos se buscam
Mentes se afastam
Tempo não sentido
Porque há olhar

Iaromila
2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A falta

Não tenho a pretensão vã de compreender o gênero humano
Mas sim perscrutá-lo
Aproximar-me dele com se aproxima de um grande felino
Devagar
Sem pressa alguma de julgar-lhe o sentido
Que sentir e significar
São de possibilidades diversas
Chegar-me acalante aos seus sofrimentos
Chegar-me atenta aos seus risos
Sem querer entender o que lhe move
Tampouco esgueirando de seus desvios
Onde dá voltas, sinto desafio
Onde há falta, está nossa igualdade
Não há tudo, somente, nem tanto
Nada há
Senão palavras com as quais
Intentamos definir
Aquilo que sem definição existe
Independente dos vocábulos proferidos
Sigamos assim
Em silêncio
Em paz, sem pax
Sós
Que a falta que nos consome
Movimenta-nos.
E seguimos nus a buscar
Palavras que nos definam
Sem as encontrar

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Água Funda de Simone Guimarães

Água Funda
(Simone Guimarães)

Eu venho da água funda
Da água funda do rio
Sou filha do peixe-estrela
E com seus olhos me guio
Do cantar da uiára
No canto eu me desafio
Meu coração é a cara
E os meus olhos dois rios
Água de rio nunca pára
E eu vivo então por um fio
Um dia as águas me levam
E no meu rastro, meu trilho,
Hão de brilhar as estrelas,
Hão de cantar o seu brilho.
Um dia as águas me levam
E no meu rastro, meu trilho,
Hão de brilhar as estrelas,
Hão de cantar o seu brilho.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Juliana Vieira, também do grupo de Dança-Ritual-Terapia

Entre os dias 20 e 23 de agosto, estivemos juntos dançando e "desamarrando"...
Hefestos, Ares (sim, mesmo recôndito, ele estava lá), Hera, Zeus, Dionisio e suas Bacantes...a Afrodite revelada. Nós testemunhas dos nós. Atuantes na mágica do desatar, des-cobrir, fiandeiras e fiandeiros de tecituras mais presentes.

Juliana Vieira, do meu pequeno grupo, me ofertou essas palavras... essas palavras possuem seu puro dançar.
Obrigada.

Nosso confronto é sempre de eternidade.
sabemos o quanto é perecivel,
mas insistimos em manter com memoria de hoje.
Até que a lembrança se torna escassa.
Mas o coração entende nosso desejo e eterniza o calor, as lagrimas, os sorrisos.
Com carinho, mantém junto, sem grades.
Sábio coração que não nos]pijv prende.
Livre, transpira e corre.
Um encontro sem destino.
Percorrendo novos horizontes com sabedoria e generosidade.

Que bom estar por perto.
Ju

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Comunicação entre Nós - Palavras do Coração

Malu Aguiar me deu uma instrução, parte de seu projeto Comunicação entre nós
A mim foi solicitado que fosse na Galeria Laura Marsiaj, em Ipanema, sentir a obra de Brígida Baltar, uma das 20 artistas da exposição Alcova.

A parede desnuda e a parede de tijolos... e as árvores a me chamarem na sala ao lado...as fotos de Helena Bach.
Vamos à Brígida Baltar:
Fiquei a pensar qual seria a obra, a parede desnuda ou o chão ornado, confesso minha ignorância. A padronagem feita do que parece pó de barro, tijolo ou serragem - bonita. Lembra as portas dos velhos casarios da Lapa e da Gamboa.
Dei uma lida rápida nas muitas palavras bem escritas pelo curador. Li, compreendi e parti com os olhos para as obras. Achei uma puta sacação do curador colocar a obra, não sei de quem é, uma projeção de vários relógios ao lado da parede nua.
A imagem do chão e a parede nua, a esquina, o canto - me remeteu a algumas imagens:
- os cantos infantis, que eu ornava com brinquedos, os limites transformando o canto em continente.
- as mandalas tibetanas que são feitas cuidadosamente durante dias, às vezes, meses, a areia colorida fazendo desenhos belos. Qdo terminadas, essas obras são simplesmente varridas, um ensinamento sobre a impermanência, conceito importante do Vrajnaiana. Esse pensamento me deu uma enorme, enorme vontade de soprar a obra e ver aquele pó de tijolo impresso na parede branca. E depois lavá-la, para vê-la novamente nua.
- visões infantis me invadiram... qdo eu era criança tinha a mania de acordar e ficar alguns minutos fitando a parede vazia, os devaneios aquosos me preenchiam os primeiros minutos da manhã.
A obra da parede de tijolos foi curiosa. Quando entrei na galeria fui chamada pelas árvores e depois por esta parede. Só depois vi o beija-flor, que também gostei muito. Enfim, quando vi esta pequena parede de tijolos, lembrei de um livro chamado Menino Nito, de Sonia Rosa. Este menino suprimiu suas emoções, seu choro e a imagem que a autora usou foi a construção de uma parede de tijolos. Como não é possível fazer isso por muito tempo, ele ficou doente. Quando ele conseguiu colocar para fora as emoções, a barragem foi se quebrando... aquela parede tinha muito choro por trás dela. Talvez a arte sempre evoque a minha criança e as emoções fluam como o choro curativo do menino.
Quanto terminou tudo, voltei às árvores.
Ainda estou embevecida com uma descoberta mágica que fiz outro dia. Depois desse tempo de doença-cura-saúde... e depois de várias outras coisinhas que me aconteceram, e coloco nossa comunicação (entre mim e Malu) nesse angu, o blues da piedade batia na cabeça:

Pra pessoas de alma bem pequena; Remoendo pequenos problemas. Querendo sempre aquilo que não têm... Pra quem vê a luz, mas não ilumina suas mini-certezas...

Viver na falta? nunca mais. Viverei na presença e no que há daqui para frente.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Imagens





Livreto dos Versos



ILÓGICO

Talvez se esquecesse a métrica
Ficaria a vontade
Para falar em poesia
Para dizer o que sinto
Para definir o que penso

Uma lágrima
Um caso de amor
Meu amigo é o silêncio
Um sonho, um canto
Um toque mais lento
Um lamento
E parto para o meu mundo

E se meu sonho calasse
E se minha boca falasse
Se eu soubesse dizer o que sinto
O que dói e o que minto

Um desejo de vida
Despedaçaram a flor
E tocaram meu pranto
Um campo ao vento, acalanto
Meu mundo
Meu sonho
Meu canto

E a métrica que criei
Não é lógica, não tem sentido
Retrata o meu íntimo
E fala meu segredo
E cala no meu céu
O tempo que já passou
A pedra que já rolou
E tudo o que não vai voltar



AO PASSADO

Faço poesia de vida vazia
Alimento lembranças de madrugadas
Faço sonetos de alma atormentada
Luta em espírito
Sonhos em movimento
Nuvens intransponíveis
E o olho que vigia está dentro de mim
Quero seguir, quero ficar
Tenho medo de ir
E não ter para onde voltar
Assusta e arrefece
Palavras ao vento
Pensamentos enquadrados
Crônicas de uma vida quotidiana
Feliz, perfeita, bonita
Transformação efêmera
Válida, fugidia, longínqua
Livre caminho, caminho livre
Invenções do bicho homem
Poder, domínio, natureza, magia
O homem quer
O homem sonha
O homem entristece
Segue sem viver o seu desejo
Porque quer
Porque pode
Porque tem


PARA FERNANDO, MEU AMIGO

Fluidas conversas de fim de tarde
Aprendi a aprender
Gôsto pelo viver sem julgar
Gôsto de tocar sem se envolver
Sabendo e querendo diluir mensagens
Sabendo saborear impossíveis paisagens
Prazeres longe de culpa
Dores longe de medos
1994


MÚSICA DA DIFERENÇA

Música que toca para cada sentir
Se transforma num novo pulsar para cada ser
Como amar com dois corações
Todas as partes são verdadeiras
Mas cada face tem um tom
Cada tom toca a diferença
Presente em todos nós
Sentimentos incompreensíveis
Verdadeiros e cortantes
Queremos saber
Ousamos sonhar
Mas nada de agir
Dizer é a grande aventura
Arrebatamentos
Ousadias
Ilusões
Mentiras
Para cada um, diversos sentimentos
E nenhum de nós sabe o que é o amor


SONETO DA SENSAÇÃO

Que segredo é esse que invade
Sem aviso e sem perdão
Deixa a respiração suspensa
E o ar pleno de saudade

E você não responde
Não tenho como chamar-te
Minha voz não te alcança
Talvez o pensamento venha a encontrar-te

Mas a vida é de surpresas
Teia de momentos
Suor de corpos, prazer, luz, movimentos

Lembrança guardada num corpo puro e são
Dor esquecida, saudade renovada
E de novo... a sensação


TARDE NA BIBLIOTECA

Sala fria
Beleza morta
Luz refletida no despedaçar
Símbolo partido
Pulsar flamejante
Ruído e paixão

Frio conteúdo
Beleza vívida
Partes fechadas na sala vazia
Luz impedida
Chão inseguro
Cujo rumo aguarda partidas

Ondulantes marcas
Beleza solta
O salto do mundo é a volta de tudo
Clave amarela, terra absurda
Sombras transformadas em luz


YIÁ

A mãe do tempo anda sobre os mares
A mãe do tempo tem o poder de criar, faz viver mas pode matar
A mãe do tempo que possui o manear do líquido
A força do mar
O profundo do próprio abismo
O abismo próprio do silêncio
A mãe do tempo que acaricia seu pássaro
E o faz voar para longe de tudo
E o faz voltar com segredos insondáveis
E o tempo que é dela
Não tem fim ou começo
Vai em todas as direções
Vai nos ermos e nos clarões
É um tempo imemorial
Um tempo sem tempo
E essa mãe sorri e o observa
Ela mistura o bem e o mal
É aquela que não procura porque sabe
Que não deseja porque já possui
Vive onde nada está
Nada na luz de todas as manhãs
Espreita a noite, sua irmã
Atinge corações temerosos e corajosos
Seu poder transmuta e faz nascer
Firme como as árvores
Forte como chão
Ninguém a olha nos olhos
Mas ela está no brilho do olhar


Soneto dos Erros

Nem sempre há luz
Soltos os planos, sem um destino
Começo a achar que é bom errar
Que só acertos a nada conduz

Viver, sem esperança e sem medo
Andar, também sobre chãos inseguros
Pensar, para não perder o controle
Com consciência que a vida não é/é brinquedo

Viver não é útil/inútil
Morrer é certo
Errar não é caminho fútil

Correr para a viagem
Deixar a vida ter passagem
Solta, livre e tão sutil que parece miragem


Soneto sem esperança

Cada dia que passa
Sem volta, sem nada
Cada folha que se solta
No vazio da estrada

Lembra você, puro movimento
Lembra a mim de sua doçura
Sem nos dar forçado envolvimento
Sem tirar surpresas da nossa loucura

Viver o presente, ilimitada aventura
Plenitude, silêncio e tranqüilidade
Espera da próxima eternidade

Essa espera sem esperança
Acalma um ardor febril
Mas em cada momento traz mais lembrança


Soneto aos Aboro

Há que se começar pelo senhor dos caminhos
Exu, o um, o primeiro, aquele que vai e vem
Depois Ogum, seu irmão, guerreiro, ferreiro
Que tem nas palavras feitiços do além

Oxóssi, está na mata e nela usa seu ofá
Ossain, senhor das folhas e de sutil caminhar
Omulu, transmuta em ouro tudo o que toca
Com o seu xaxará

Oxumarê, o arco-íris, a cobra
Olho de um rio no Daomé
Ifá, o advinho, que protege a quem tem fé

Oxalá e seu opaxorô, surge do mundo do jamais
Senhor do branco, poderosa árvore
Sublime conhecedor de todos os portais


Soneto para as Iyabas

Nanã, a mais velha, a soberana
Com seu ibiri ninando o tempo
Oxum, faceira, útero de vida
Em seu reino cujo rio rola a seu contento

Iemanjá, a mãe dos filhos peixes
Que traz alimento de seu rio/mar
Oyá, rainha dos ventos e de outros elementos
Se for seu desejo, pode se transformar

Ewá, bela virgem das contas vermelhas
Tão misteriosa e pouco conhecida
De seu arco-íris traz promessas de vida

Obá, desconfiada e guerreira também
Divina nos seus passos ritmados
Mas com sua espada não teme ninguém


Soneto do sentir incerto

Tua figura antes nítida
Tragada para longe, se faz pálida
Por que não luta e volta?
Desfolha-se então em rosa cálida

Tua figura antes constante
Agora é rara, sussurro na noite
Não és mais, ai de mim, sonho brilhante
Opaco, ainda presente, sua falta não é mais açoite

Como explicar que mesmo assim
Amorfo, incerto e tão duvidoso
Rareado e amiúde ainda estais em mim?

Como saber se não é subterfúgio
Desse amor que me toma e do qual fujo
Para que eu possa descansar de mais um prelúdio



Para Xangô

Num reino distante desse mundo
Na imaginação viva que o tempo criou
Houve um líder de poder profundo
Sua justiça muitos atravessou

Dono de um fogo de grande esplendor
Ele dança o alujá com muita energia
Um rei entre reis, de pura magia
Oxê, seu machado, possui seu ardor

Perguntam se é encantado ou se aqui viveu
Dizem que é força que a natureza produz
Mas se aqui andou, limites não conheceu

Tem uma coroa de raro brilhar
Espargindo luz para quem sabe olhar
Xangô, rei que aprendemos a cultuar



Soneto do amor desconhecido

Dizem que é mais difícil
Esquecer um amor que mal conhecemos
Deixar de pensar no que não sabemos
Que tentar tal coisa é vão sacrifício

Um amor como esse desconhecido
De tão incerto e sinuoso
Os desejos que traz, desejos de gozo
Supera a lógica, desmente o sentido

Amor explosivo e flamejante
Não nega a morte, não se esconde
Brilha nos olhos tal qual diamante

Medo não há em tal sentimento
É cego, intrépido e pulsante
E sempre novo, é sempre momento


Soneto sem sentido

Tenho tentado dizer-te adeus
Mas a palavra e o pensamento teimam em não sair
O tempo, esse Deus, do qual não podemos fugir
Tem sussurrado realidades nos sonhos meus

Mesmo assim, tendo nele meu companheiro
Fazendo rolar lágrima escondida
Sinto-me tão encontrada e tão perdida
Querendo estar aqui e no mundo inteiro

Com tal sentimento, tão desencontrado
Não há, entretanto, nada de amargo
É belo, é denso e há um quê de dourado

Por isso, só o Tempo há de matar
Esse sentir que tenho
Mesmo que lento, com certo vagar


Cachoeira

Subindo a ladeira de terra batida
Avisto uma Igreja no alto
Branca, velha e esquecida
Penso quantos orações suas paredes guardam
Quantos nela já choraram males de amor
Quantos já clamaram milagres e curas
Sento num canto qualquer
Na soleira da porta de alguma mulher
Casas simples, com suas fotografias pintadas
Lembrando um parente que ninguém sabe mais quem é
Casas juntas, lado a lado
Na ladeira que vai dar no Rosário
Naquela se cozinha, noutra se espera
Ouço músicas, vozes e sento ali
Meu rosto estranho, meu cabelo brilhante
Chama as crianças
Vem um olhar, outra perguntar
Daqui a pouco, são 5, 10 e mais
De todas os matizes que o Brasil tem
Naiara, Alana, Vitória, Marinho, Neto...
Tantos rostinhos
Todos igualmente vívidos
Delícia de olhar
Um pede desenho: eu quero trem, eu quero flor...
E vibram com os meus traços
Mal sabem eles que aquele singelo instante
Que fugiu de sua mente no mesmo dia
Ainda hoje, quando lembro, me enche
Da mesma suave alegria


A folha

Caminho de ir
Por uma estrada torta
Com um vento por companhia
Brisa leve ou ventania
Carregar as folhas que já se soltaram
E vagam secas no meu caminhar
Olhar para frente e para o imenso
Olhar para o presente imerso nos próprios passos
É ali que se instala e segue adiante
Sem saber se perto ou distante
Procurar venturas no desbravar
Expansão externa, tão importante
Expansão interna, tão dolorosa
Lugar tão belo e oscilante
Da folha que teimou em se soltar


Óleo perfumado

Há no meu corpo um sinal
De surpresa, de calor e desejo
De algo que veio num lampejo
Gravando na pele símbolo sem igual

Tenho no meu íntimo um tempo
Próprio, solitário e sedento
Quer se esquecer e ir-se solto
Para desprender tal sentimento

Solto e livre, já não há como ir
Para onde partir, se onde quer que se esteja
Está esse enroscado devir

Então é no aqui e no hoje
Que esse amor vive e se alimenta
Seu saber sempre se reinventa


Amor sem fim

Como dizer que o amor acabou?
Não há como acabar se já se fez
Algo belo se expande, muda, dá sua vez
Transforma o mundo que o transformou

Se é amor dura todo o presente
Nem tanto com a mesma face
Pode envolver num só enlace
Beleza, desejos e ter a posse ausente

Amor é algo que só aumenta
Não como queremos ou sabemos
Mas como ele próprio se inventa

Com sua magia e seu ondular
Espectadores dele nos surpreendemos
Luz e sombra no nosso despertar


Verso 36

Não há mais palavras
Entretanto, continuo plena de sentimentos,
que me rondam como uma música que se pode tocar
Como um mar, acariciando e sendo acariciado,
tornando-me esse ser que transborda
Tenho impressão que já disse tudo
numa sutil e irritante educação
Já coloquei meu coração para ser devorado e aproveitado
Porque seu proveito seria o meu proveito
Não importa se é fragilidade ou imaturidade
Quero, e não sei se isso é amor
Quero, com uma urgência sem par em minha vida
Uma vontade desconhecida, que não compreende
lógica, medo ou orgulho
Essa sou eu!
Sim, sou geniosa e apaixonada pela vida e
por todos os riscos que ela possui
Minha ponderação acaba onde começa a angústia
Porque não nasci com a tendência do angustiado,
eu sou a que quer agir sem saber que é assim
Refreada de início, com medo das conseqüências,
Mas quando o presente se dá
Esqueço qualquer arrependimento
Não sou explicável, não sou fácil ou meiga
Sou visceral, egoísta, fútil
Quero ser adorada em vida e temo ,bem lá no fundo, a morte
Mas esse temor não paralisa, só movimenta por dentro, transforma-me em tormenta
Traz tempestades de desejos tórridos, ardentes e fluidos, que não me deixam dormir
Não sei como isso vai acabar, ou se é só meu íntimo
procurando movimento
Quero parar de sentir ou explodir disso, e que essa explosão seja vista em tons e matizes ínfimos pelos amantes que passam
Talvez daqui a alguns meses ou dias, quiçá horas, venha a achar tudo isso ridículo e pueril
Mas agora, é pura expressão de um pedaço meu, fruto das minhas entranhas, que exponho para tentar esquecer
É meu vinho que te ofereço
Sorva-o e delicia-me, fuja e agita-me por dentro
De qualquer forma, beberemos à vida, por sua aventura profunda que não se repete



Oração

Meus Deuses são os D’África
Chegaram aqui por dolorosos caminhos
Se reinventaram em vários cadinhos
Numa fé bela e iniciática

Quem os procura, os descobre em viagem interna
Se vê, vê seu eu e sua cor
Descobre, e é aí que há sabor
Que do íntimo dá pra ir aos confins da terra

Um espelho mágico, desconcertante
Brinca com a bela e a fera, natureza
Deparamos com o pulsar da terra, penetrante

Esses Deuses são mágicos e travessos
Estão dentro e fora, perto e distante
E nos fazem enxergar sob véus espessos


Ventos no espírito

Que Oxalá dê a acurada paciência para saber quando ir e quando vir
Que Nanã dê profundidade para sentir e para sonhar
Que Oxum dê perícia para experimentar sem ferir
Que Oya dê coragem para fazer o que desejar
Que Xangô dê senso de justiça, bom proveito dela para todos nos
Que Omulu dê saúde, ouro e sapiência
Que Oxumarê, com seu arco-íris, encha minha vida de brilho
Exu, o Senhor do Poder, me dê o ditado de volta
Que ele volte para mim envolto em cores e alegrias
Que eu aprenda com os fatos e com os atos
Comigo e com o próximo
Com os livros e com os ditos
Com revelações e segredos
Com o igual e com o diferente
Com o sério e com o irreverente
Amo e sou amada
Quero e sou querida
Almejo e conquisto
Aprendo com a caminhada
Sem medo da morte
Sem medo da vida
Sem medo de mim

Assim seja


Hoje

Depois de dançar para meus ancestrais
Que ainda não consigo nomear
Nem localidades, nem dessas coisas práticas...
Que teimamos referendar
Eu os senti
Eu os vivenciei
Quem ousará dizer que não
Pois os experimentei pulsando
Senti meus pelos se ouriçando...
Depois de tão sagrado instante
Fui beber
Fui reviver vãos tempos
Fui falar da vida e da bela vaidade, das bobagens...
Fui rever a beleza dos pequenos cotidianos
Pequenos vidros quebrados de todo momento
Re-expressar palavras já ditas
Revisar seus significados
São as tais representações...
Dancei, vivi, bebi minhas lembranças.
E vi que o vislumbre de nós não precisa ser nada


Corusco

Nem sei que nome te dar, já que não levamos a cabo nossas possibilidades
Sei que houve ou há amor, não dos mais fáceis e maleáveis,
mas dos mais difíceis e conturbados.
Nossas diferenças, tantas tantas, sempre foram e sempre serão surpresas
Nunca fui muito boa em testes, sempre me perdi tentando testar algo que mesmo eu não suportava em mim
Como nos enganamos fugindo ao amor...
Ele sempre está lá, mesmo que dele não façamos conta
Mesmo que dele façamos subterfúgios nem sempre verdadeiros de nós mesmos
Mesmo que tenhamos nele refúgios inculcados de nossas crendices
Mesmo que tenhamos a impressão que dele podemos tomar controle
Ele não é controlado, não pode ser
Porque tem que nos ensinar, porque tem que nos aprender
Por tantos caminhos já caminhei para esquecer de momentos
Agora, neste instante, paro de tentar, não quero esquecer
Quero lembrar, quero desencavar, quero des-cobrir
Quero mais é viver grandes amores dentro deste amor
Porque é grande, é enigmático, é forte e vivificador
Traz brumas de cores tão díspares, traz um entorno de cirandas iluminadas
De encruzilhadas enluaradas
Traz um em mim tão transcendente e bizarro
A sombra de um ser, que sempre está lá, que sempre me responde
Num riso mágico se despede da minha lembrança para se transmutar em possibilidades Em devir
Em dobras infinitas de indistinguíveis paisagens de nós, dos nós
de nós, dos nós...


Lisianthus

Agora que já não me possuo mais na lembrança, através dela
Posso falar abertamente da dor
Sempre ínfima, íntima e constante
Lembrando pedacinhos de tempo passado
Águas cristalinas rolando pelo rio
Rio cujo rumo daria onde não sei
Já posso expressar o que senti a cada negativa
Confirmando abandono
Estendendo o adeus
Num tempo sentido noutro tempo

Agora que a torre ruiu e é tempo de mudar
Já posso contar dos desejos, dos suores,
Dos sonhos emaranhados
Do vício de lembrar
Essa materialidade do adeus
Torna cinza a tua carne e te espalha ao vento
Como então te torna pó
Seja transformado
Alimentará outro, outros, outra vida
Agora que aqueles momentos não estão mais aqui
Nos quais o lembrar me trazia paz
O esquecer me desnorteava
O seu presente nos meus minutos
Como se pudesse chegar a qualquer momento

Acabou
Lembrança
Esperança
Amargura
Sofrimento
Ficou a doçura do vivido
O preencher do esperado
O tornar-se virou passado
E das cinzas nasceu uma flor
Ela é amarela; Ela é, sem dor